Surdir


Textures: Effluent

 




È noite cerrada.
 As estrelas juntam-se lá no alto,
 como se já adivinhassem o que está para acontecer.
A névoa oculta-nos a covardia - por baixo de nós jazem invisíveis as estacas de madeira,
 crucificadas no solo ainda devoluto de matéria humana.
Um ponto de luz surge no horizonte - entrelacemos as mãos e rezemos para que este seja o presságio que já há tanto tempo se tem desenhado nos nossos sonhos.

A tua pulsação intensifica-se, 
o oxigénio é já quase rarefeito, 
escorre o suor pela testa, 
tremem-te as pernas, 
os braços e toda a tua metafísica 
- e eu tranquilamente observo como são belas as estrelas, as únicas testemunhas que teremos desta nossa liturgia.


Escuta o que lá vem: 
é ele. Ou ela. 

Ainda não se resolveram quanto ao seu género. 
Mas que importa lá isso agora?
È tempo de nos amarmos.
Tereis o obséquio de me oscular com toda a alma e pujança?

Olha como se aproxima - veloz, mordaz e temerário - mas nada temas! 
Enquanto todo o Cosmos se alimentar da nossa Paixão, seremos inquebrávelmente imortais.   

È hora: lancemo-nos ao abismo que nos separa da imortalidade. 

Agarra-te ao desejo. À vontade. E acredita.

Somos levados pelo comboio das duas e quarenta e sete até à estação terminal assinalada no mapa dos nossos corações.



Morte
é
uma 
porta 
que 
se 
abre, 
para 
toda
uma
infinidade
de 
possibilidades
susceptíveis
de 
serem
ou
não
afincadas
pelos
dentes
que
mordem
as
pontas
da
Vida...


Para trás, deixámos, despedaçada, a essência humana:
 aos olhos das mentes mais fracas um espectáculo de horror;
 para nós, um sentimento abstracto materializado em rios escarlate, fulgados pela imponência da Lua.

Rompemos o alvéolo que aprisionava o expoente da nossa condição. 
E agora, libertos, cavalguemos até ao saudoso astro. 
Deixemos que comungue um pouco da nossa eucaristia.

Tudo se mantém análogo ao nosso fim. 
Porém, se, encarecidamente fitares o Universo, tudo se transfigurou.

Somos, agora, areia cósmica, semblantes omnipotentes e omnipresentes.

Tudo o que desejas, já o é. 
Tudo o que queres, já o tens.

7 comentários:

  1. a palavra que eu usaria para descrever este texto seria: Poesia. Com um estilo próprio, é certo, mas com o lirismo e expressividade que tanto denotam este género literário. E eu gosto ;)

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  2. Hey!

    É me difícil classificar este tipo de textos que escrevo num género específico.
    Acho que é mais fácil classificar os textos que exponho no outro blog (maioritariamente prosa).

    No entanto, acho que os rótulos que lhes pomos, não são importante.
    O que me interessa a mim é que tenha valor expressivo :D
    A etiqueta está pendente de cada um.

    Se para ti é poesia, assim seja ;)

    ~Namasté~

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  3. Escreves verdadeiramente bem! Estou completamente "atropelado"! Ainda não tive tempo para explorar todos os textos, mas são magníficos! Parabéns.
    Fico á espera do primeiro livro que publicares, autografado e com dedicatória! :)
    Abraço!

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  4. Ikki,
    you're too kind!

    Quiçá, se esse dia chegar, entregarei um exemplar a todos estes leitores gentis xD

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  5. Adorei. Mas que agradável surpresa... Como é que este blogue não tem mais seguidores, mais exposição? Devia, com todo e muito mérito...


    Stay Well e vou passar mais vezes, certamente!

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  6. Nelson, Obrigado pelas tuas palavras :)

    Eu acho que este blog, tens as visitas que merece.

    Abraço

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