Les Jours Tristes

Sugestão de acompanhamento:

Sur le fil- Yann Tiersen




Dos que já partiram, só nos restam as memórias. 

Avivam-se quando olho para as fotos emolduradas, que estão mesmo ao pé do meu pc. 
Lá estamos: dois amigos abraçados - foi na festa dos teus vinte anos - cuja alegria parece ter ficado fossilizada naquele retrato.
Ouço aquela música que passou na discoteca - dançámos até as nossas energias se terem esgotado -, o meu rosto ilumina-se com um sorriso e, ao mesmo tempo, uma lágrima vaza pelo meu rosto. 
Fecho os olhos e lá estamos nós, à chuva.
 Gritamos ao mundo- como éramos loucos! - os nossos corpos rodopiam, para depois  tombarem na relva, já banhada pela chuva de Inverno. Rias e rias! Um riso alienado, quase demente. Só querias festa e diversão! 
Eras um doidivanas. 
E era disso que eu gostava em ti. Sempre pronto para viver a vida. 
Se te deixassem, metias-te num avião e ias explorar florestas tropicais e cavernas e subir montes e vales...
«E depois quem é que tomava conta de ti?» , dizia-te eu.
A tua mãe adorava-me. Sabia bem que eu era o mais ponderado e astuto dos dois. Muitas vezes me pediu para tomar conta de ti.
«Tiago, por favor, não o deixes beber muito. Toma lá conta dele porque ele sozinho é um perigo.»
E eras. Sempre que saías sem mim ou te embebedavas ou perdias alguma objecto pessoal. 
Quando obtiveste a carta de condução, até me arrepiei. Desse modo, já não precisavas dos transportes públicos ou de ir nos carros dos outros.

Lembro-me tão bem daquela vez em que te embebedaste tanto, que começaste a discursar sobre o facto do  teu pai ter sido um grande bode.
Nesse dia, conduzi o teu carro para minha casa.
Não queria que a tua mãe pusesse os olhos na figura miserável em que te tinhas posto. Camisola suja, um intenso cheiro a álcool, e os termos que usavas certamente não agradariam à senhora Lena.
Nunca to disse mas tive uma dificuldade enorme em deslocar-te até minha casa.
Pesavas mais que eu. Consequência das tuas horas de musculação no ginásio, coisa que eu nunca fui a favor. Dizia-te eu para ires trabalhar no campo. Sempre apanhavas sol e o teu trabalho beneficiava alguém. 
Despi-te a camisola, as calças e dormiste assim, na minha cama.
Eu posso dizer que praticamente não dormi. Quis ficar a mirar-te. 
Eras-me tão bonito...
Sereno, ali estavas tu, o urso sempre guerreiro transformado agora num frágil cordeiro.
Nessa noite, confessei-me a ti. Expulsei o que já guardava há 3 anos. 
Eras, de facto, o meu melhor amigo. E eu, incontestavelmente, também o era para ti. 
Mas dentro de mim havia mais. Um amor concebido e enjaulado. 
Só a tua mãe tinha conhecimento desta fera que me rasgava o âmago com as suas garras.

Eu sabia que o mesmo vindo de ti era impossível. Sabia-o tão bem.

Quantas vezes me pediste preservativos, porque os teus já se tinham esgotado?
Eras tu o único que os gastava. 
Eu ansiava pelo dia em que um deles seria usado comigo.
Lembro-me dos teus gemidos quando atingias o orgasmo, com uma rafeira de uma discoteca qualquer.
Íamos os quatro para tua casa, quando a tua mãe não estava.
Cada rapaz com a sua moça, num quarto.
 Ouvia-se - oh, se se ouvia!- o quanto te divertias com elas. 
Comigo nada acontecia. Embora as minhas companheiras o quisessem fortemente, eu só pensava em ti.
Oferecia-lhes um copo de sumo, com um sonífero dissolvido, e dizia-lhes que aquilo era «uma cena que aumentava o prazer». Elas, todas gulosas, bebiam todo o conteúdo. Nunca passámos a fase dos preliminares. Chegavam a um ponto que se cansavam. E adormeciam. Depois, lá ficava eu, a olhar para o tecto escuro, perdido no meio dos teus prazeres.
Mesmo o teu sexo selvagem com estas raparigas não me fazia abandonar a esperança de que....

O dia do teu acidente foi o dia mais triste da minha vida.
A voz da tua mãe ainda soa como um mantra sombrio, na minha cabeça.
«Tiago... O Pedro está no Hospital. Teve um acidente.»

Arranquei com o carro dos meus pais. Levei uma multa por excesso de velocidade.
A tua mãe estava num pranto, capaz de fazer cair as estrelas do céu. 
Abraçamo-nos fortemente.
Pouca coragem me preenchia o corpo para averiguar o estado em que o desastre te tinha posto.
Espreitei, tremendo, pela porta entreaberta.
O teu coração pouco batia.
Distingui os olhos no teu rosto mutilado. Tudo o resto eram ligaduras.
Arrepiei-me. 
E a partir desse momento, não mais abandonei a tua mãe.


Tínhamos  medo de te perder. 
Desmanchei-me em lágrimas, quando o médico disse que o teu estado era crítico.
A Morte puxava por ti.
 E nós mais ainda. Ou pelo menos tentávamos.
Nesse dia, achei que a vida tinha sido demasiado cruel. 
Para ti. 
Para mim.
Para a tua mãe
Para o meu amor.
Para a nossa amizade.


Se não tivéssemos discutido, eu poderia estar numa maca a teu lado ou quem sabe já estar morto.
Na melhor das hipóteses, se eu  tivesse permanecido sempre a teu lado, o Hospital era hoje uma miragem.


O princípio exacto da realidade dizia-me que te ia perder. Para sempre.
Ponderei ainda o suicídio. 
Lembrava-me dos que dizem que depois do  fim terreno do homem, este se volta a encontrar com os seus entes amados.
A imagem de te poder voltar a abraçar era tentadora. 
Mas e depois.... os outros? 
A tua mãe, Pedro, ela precisa tanto do meu apoio.


Quando o médico se aproximou, hesitante no passo, demorado nas palavras... Já o sabia.
Ela tinha-te arrancado de nós. 


A senhora Lena caiu de joelhos no chão.
Perplexo, agachei-me e envolvi-a com um abraço. Um abraço daqueles que te dava sempre nos momentos em que tinhas medo de falhar.
 Um abraço que apenas pela sua força, te garantia que iria estar ali sempre para ti.
«O nosso menino,Tiago...ele foi-se.»


O seu choro ainda hoje não tem fim.
É-me difícil imaginar a mágoa de uma mãe que perde um filho.
É. 
Sei, no entanto, o quanto dói perder o nosso melhor amigo. 
Sei o quanto dói perder a nossa paixão.
Sei o quanto dói perder um ser humano.
Desaparece uma parte de nós. 
Corrompe-se a alma.




Mas e depois.... os outros? 


Uns partem e outros ficam.
 E é meu dever, agora, cuidar dos que cá ficam.


Tu nunca foste meu.
Eu, sempre te pertenci.


Há três anos que partiste.


Levo-te comigo, para sempre.


7 comentários:

  1. A música foi a cereja no topo do bolo. Sentia-me naquela sala de espera do hospital, sentia-me a assistir impávido à dor daquelas personagens, via-me no seu quarto a observá-lo a admirar o retrato congelado no tempo. E doeu como se fosse a mim. Este é um texto fantástico, estás de parabéns.

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  2. Há já algum tempo que quero expelir este tipo de sentimentos.
    Doeu escrever isto. Mas teve de ser.

    Obrigado pelos teus comentários :)

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  3. Tens uma grande sensibilidade para a escrita. E não só - a música escolhida completou cada frase tua. Fiquei arrepiado...

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  4. Provocar sensações nas pessoas - é isso que pretendo.

    E pelos visto consegui
    - obrigado pelo teu comentário ;)


    P.S- Não pude deixar de reparar: a tua foto e a do Ragdoll são muito parecidas, foram as duas tiradas da perspectiva de cima (?)
    é engraçado.

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  5. Ahahahah por acaso são parecidas. A minha foi tirada de cima e penso que a dele também.
    E tu mudaste a tua foto!

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  6. Mudei.

    O Link no me gusta más.

    xD

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