O casal do 37 - { fragmento II }



Sugestão: 
The Original Four Seasons






Nesse dia cheguei a casa com um sorriso nos lábios, que só se desvaneceu na manhã seguinte.
Sorria, mas não sabia ao certo porquê. Não percebia ainda porque é que aquele gesto deles, me deixava feliz.
Mas nessa altura, nem pensei nisso. 
Como já referi, o 37 era aquele que me levava para casa, excepto nas vezes em que o meu pai me ia buscar.

A segunda vez que os vi, estava eu sentado num dos bancos, na zona prioritária para grávidas e acompanhantes de colo,  de costas para a entrada.
Lá fora, O céu ameaçava abençoar-nos com a sua chuva a qualquer momento. 
Os dois entraram e desta vez não compraram bilhete. Já eram portadores do passe. 
Cumprimentaram o motorista com um desinibido boa tarde e movimentaram-se até aos únicos lugares disponíveis. Sentaram-se, ao pé das portas de saída. Da minha posição pude observar todos os passos e gestos que tomavam.
Enquanto falavam animadamente um com o outro, sorriam. 
E era bom vê-los sorrir. 
Eram sorrisos desmascarados, simples, libertos.
Descolavam das suas caras, para contagiar o ambiente. E o dia cinzento que destoava começava a ganhar cor.

Aquele amor jovial hipnotizava-me. 
As conversas dos outros, a que costumava estar atento,  desvaneciam-se.
As dores de joelho do homem que se queixava à mulher recém constipada, eram aniquiladas pelas gargalhadas que voavam daqueles dois moços.
O autocarro deteve-se e uma senhora grávida alistou-se aos passageiros.
Levantei-me, claro, e convidei-a a sentar-se com um sorriso, que me foi devolvido com um obrigado.
Dirigi-me para a parte que ficava mesmo em frente às portas de saída. E ali fiquei, atrás deles.
Cheirava bem, naquele lugar- e que essência!. Um suave aroma de côco e mentol emanava de um deles.
«A minha irmã convidou-nos para ir lá jantar. Queres vir?» - era o Filipe quem perguntava, o rapaz moreno.
«hum? Convidou-nos? então ela já sabe, é?»
«Eu apenas confirmei uma dúvida dela. Vem lá comigo..»
«Não sei, Francisco, tenho que pensar...» e dirigiu o seu olhar no sentido oposto, para lá  da janela.
Estava curiosíssimo.
Queria perguntar-lhes há quanto tempo namoravam... queria saber tanto sobre eles...
Mais uma paragem e uma senhora um tanto já idosa deu entrada. Um pouco curvada, carregada com sacos foi caminhando, devagarinho, agarrando-se para não cair, à espera que alguém dispusesse um lugar para si. Mas ninguém a acudiu e chegou até mim.
Pousou os sacos, suspirou e sorriu para mim. 
Eu retribui. Os seus olhos granjearam a minha atenção. Claros como a luz reflectida num rio de Verão, sentia aquele olhar a descortinar a minha alma. 
E ficámos a encarar-nos até ao momento em que Francisco se ergueu e pediu
«A senhora, por favor sente-se aqui».
Surpreendida, ela acedeu, e lentamente se acomodou no acento, com os sacos a seus pés, mesmo ao lado de Filipe.
«Muito obrigado, meu jovem. A idade já pesa. E estes sacos também. Ès muito gentil.»
Tinha uma voz tão carinhosa, dotada de meiguice e bondade, que me arrepiou.
Francisco piscou o olho a Filipe , que devolveu o gesto com um sorriso.
«Como te chamas, meu filho?»
«Sou o Francisco, muito prazer.»- ocupava agora o lugar em pé, a meu lado. Aquele perfume tão libidinoso provinha dele. 
A senhora remexeu nos seus sacos e extraiu de lá um chocolate.
«Toma Francisco. Os meus netos gostam muito deste. Espero que também gostes.»
Que simpática. A senhora era, realmente, um doce. Os seus netos tinham muita sorte por terem uma avó daqueles ao seu dispor, pensei.
Francisco ficou espantado com aquele gesto, mas não recusou a oferta.
«Obrigado, ahn, mas não era preciso.»
E sorrimos os quatro.
Quando chegou a altura da nobre senhora se aposentar do autocarro, Francisco disponibilizou-se para carregar os sacos até ao exterior e apoiá-la na descida do degrau.
«Até à próxima!», despediram-se e ele voltou para junto do seu companheiro Filipe.

O que se passou depois espantou muita gente. 
Eu já estava à espera que, mais tarde ou mais cedo, aquilo tivesse de acontecer.
Filipe esperou que ele se sentasse. Olharam-se nos olhos e sorriram. 
No momento seguinte, Filipe aventurou-se e beijou Francisco, que pela sua reacção, não esperava tal acto. 
Francisco ficou cabisbaixo. Talvez meio envergonhado.
Filipe desviou o olhar para a rua. Nenhuma palavra foi trocada entre eles. Depois, Francisco lembrou-se do chocolate oferecido e dividiu com o seu amigo, que o aceitou alegremente.
Eu continuava a sorrir.
As pessoas que se tinham apercebido daquela manifestação de amor, já a comentavam.
As opiniões divergiam na parte de trás.
« Já viste, Teresa, é muito simpático, o rapaz. E giro. Mas parece que é gay.»
«òh Laura, No meu tempo, os rapazes andavam atrás das raparigas. Não havia disso»
«Não sejas parva, mulher. Gays sempre existiram. Olha lá os rapazes. são tão bonitinhos.» retorquiu uma senhora, talvez já cinquentona.
«Ai lá isso são.»
Um senhor comentava com outro, propositadamente num tom alto, que era errado coisas daquelas acontecerem.
O outro assentia com a cabeça. 
«O homem foi feita para acasalar com a mulher. Deus não gosta disso», dizia. 
Eu lamentava tal opinião. E apeteceu-me gritar com aquele sujeito. Naquele momento, senti que se estava a beber da felicidade dos rapazes, deveria defender o seu amor.
«Está calado, Zé. Se achas isso, porque é que não tiveste filhos? Não sejas burro, as pessoas não escolhem de quem gostam. Deixa lá os rapazes serem felizes.», declamou Laura. Cada vez gostava mais daquela mulher.
E o Zé balbuciava baixinho, agora mais amansado.
Os jovens permaneciam em silêncio.
Francisco estava com as faces coradas. 
Filipe continuava a sorrir.

Entretanto, cheguei à minha paragem e saí.

Nessa noite ponderei sobre vários aspectos da minha vida.
Se me sentia feliz e contente por ver um casal de rapazes, unidos pelo amor, isso quereria dizer que eu próprio gostaria de estar na mesma situação...com outro rapaz...?

Ter alguém a meu lado com quem partilhar um chocolate e trocar um beijo.
Foi tudo o que desejei nessa noite.

2 comentários:

  1. Não cessas de me surpreender com as tuas histórias. Quando eu pensava que era impossível isto ficar melhor, tu escreves e provas que estou errado. Adorei :) continua.

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  2. obrigado!
    Haja alguém que goste!

    ;)

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